domingo, 8 de agosto de 2010

Claquete repercute - O segredo de brokeback mountain

No mês passado um post sobre o filme O segredo de Brokeback mountain, parte integrante de Panorama (mostra que repercute a carreira de um cineasta mensalmente aqui em Claquete), suscitou polêmicas no tópico de comentários. Claquete repercute, devido a importância do trabalho de Ang Lee e seu status quo iria eventualmente abordar o filme no espaço. Contudo, a ideia era de fazê-lo mais adiante, até porque na coluna inaugural o filme escolhido (Crash-no limite) era do mesmo ano do drama de Lee. A polêmica se impôs e precipitou a escolha de Brokeback Mountain.
O filme de Ang Lee foi recebido como o polarizador que se propõe ser no âmago. A história de dois caubóis que se apaixonam no Wyoming dos anos 60 e lutam contra os próprios impulsos e contra o sentimento que se estabelece não foi uma escolha fácil. Heath Ledger não aceitou de pronto o papel de Ennis Del Mar, o homem que entra em litígio com sua consciência em virtude de sucumbir aos clamores da carne. O ator só deu o seu sim para a produção depois de ser encorajado pela então namorada Naomi Watts e pelo amigo Terry Gilliam. Fazer o filme foi outra odisséia, já que a produção independente enfrentou os percalços típicos de um filme dessa procedência, com a agravante de abordar abertamente uma relação homossexual.
O leão de ouro em Veneza chamou a atenção para o filme e contemporizou os ânimos dos mais transtornados. Se premiado em Veneza, a fita não haveria de ser tão chocante. O segredo de Brokeback mountain, de fato, não é chocante. Feito a ressalva de que não é chocante para um espectador sensível e aberto a inflexões desprendidas do conservadorismo que o filme reporta em sua ambientação.

Filme paradigma: solidão, desejo, paixão e incompreensão. Há muito mais que amor movendo a trama de Brokeback mountain...

A estrutura narrativa da fita é esmerada no melodrama. Uma estratégia adotada por Lee para universalizar sua história. O resultado não poderia ter sido mais feliz. Apesar da fita ter sido banida em alguns países, como a China, O segredo de Brokeback Moutain foi sucesso em várias partes do mundo, inclusive no Brasil. A pejorativa pecha de “o filme dos caubóis gays” ou “o filme definitivo sobre o amor homossexual” acabou injetando vitalidade no marketing do filme. No inicio do ano de 2006 não se falava em outra coisa dentro do contexto cultural. Era grande a expectativa para o “Oscar que coroaria o filme dos caubóis gays”.
Contudo, o Oscar não coroou o “filme dos caubóis gays” e apimentou de uma vez por todas a condição de Brokeback mountain como filme paradigma. A vitória, até certo ponto surpreendente, de Crash –no limite abasteceu teorias conspiratórias ao passo que mostrou que o marketing, embora seja decisivo, ainda não é definitivo em termos de se apontar um filme vencedor do Oscar. De legítimo e concreto, no entanto, a derrota de Brokeback Mountain só significou uma das últimas surpresas a tomar conta da festa da academia. Em uma noite marcada pelo equilíbrio, Brokeback mountain saiu com os mesmos três Oscars de Crash, King Kong e Memórias de uma gueixa, embora, moralmente tenha se colocado acima de todos esses, independentemente de qual teoria conspiratória seja adotada.

Heath Ledger e Michelle Willians se apaixonaram durante as filmagens em movimento contrário ao de seus personagens na trama


Não dá para dizer que não ganhar o Oscar fez bem ao filme de Ang Lee, mas certamente não lhe fez mal. Esse infortúnio lhe concederá uma imortalidade negada a Crash, um filme que não expressa sintomas de sua época.
O amor tangenciado em Brokeback mountain não é de propriedade homossexual, embora tenha seus adornos. Ang Lee triunfa ao se negar a realizar um filme que enverede por clichês de gueto ou que se assuma como um cinema de afronta (algo que pode ser festejado por alguns círculos e festivais obscuros, mas que é repudiado por público e crítica especializada).
A história tem valor moral e não evita o clamor pela tolerância que ecoa do lado de cá das telas, mas não faz destes elementos uma bandeira. É sintomático que a platéia se polarize nos extremos do filme. É o sonho de quem produz cinema independente hoje em dia. E mesmo aí, Brokeback mountain é um sucesso. Consegue atingir um público diversificado e ao mesmo tempo se instaura como debate sociológico de uma questão fundamentalmente inerente aos nossos tempos. Mesmo que no fundo seja um romance tão convencional quanto aqueles dos anos 30 que sua avó diz que não se produzem mais atualmente.


Heath Ledger custou a dar o sim para Ang Lee mas tornou-se uma das grandes forças do filme após tê-lo feito

7 comentários:

  1. Confesso a minha indignação com a derrota de Brokeback Mountain para Crash no Oscar. O prêmio sem dúvida serviria para coroar o grande momento de Ang Lee além de abrir as portas para o cinema sutil e sentimental de que tanto gosto.

    ResponderExcluir
  2. Este filme é lindo! Acho que a grande chave dele é enfocar uma história de amor que causa empatia enorme com a gente. Nós nos envolvemos com Ennis e Jack, com a vida deles, com o caminho que eles decidem trilhar, com as escolhas tomadas. O que me chama atenção também é o respeito que todos os envolvidos tiveram com o tema. É um filme notável. Uma linda história de amor, como eu disse. A cena final é de uma intensidade....

    ResponderExcluir
  3. Eu acho "O Segredo de Brokeback Mountain" muito superestimado... Não consegui ver uma história de amor nesse filme...

    ResponderExcluir
  4. Daniel Taranto: Sua indignação é a de muitos meu caro. Obrigado por externá-la e pelo comentário também. Grande abraço!

    Kamila: A cena final é mesmo muito intensa Ka. no mais, tendo a concordar com vc. É só ver pelo artigo né?!rsrs Bjs

    Matheus Pannebecker: Eu sei... rsrs.
    Abs meu brother!

    ResponderExcluir
  5. Gosto do filme e recomendei a leitura da tua análise a um amigo.

    ResponderExcluir
  6. Obrigado Marcio. Fico feliz que avalize minha análise aqui. Grande abraço!

    ResponderExcluir
  7. Detestei o o filme...fala serio!!

    ResponderExcluir